Tenho uma amiga que diz…que não há relações, que no campo das interacções pessoais o que existem são “ralações”…
Quer ela com isto referir que estas coisas “dos outros e eu” não são nada lineares, bem pelo contrário… e muito menos fáceis…por isso requerem investimento…muito investimento? Não! O investimento todo!
Apesar do humor que está por trás desta visão da “relação-ralação” ninguém duvida que se trata de um assunto sério…dos mais sérios, até! Basta olhar para a inesgotável literatura em volta do tema…e dos bestsellers de auto-ajuda…Melhor ainda será olhar para dentro de nós…para os outros que habitam em nós …
Para Sartre o “inferno são os outros…” mas a raposa de Saint Exupery sabiamente ensinou ao principezinho o “b-a ba” das relações com um pedido “Cativa-me” e logo o advertindo que “só vemos bem com o coração porque o essencial é invisível aos olhos”…
Isto parece ser uma reflexão, mas não é… deixei de gostar de as fazer… Isto é só uma constatação! Começo assim a minha constatação com contributos dos outros…sobre este mundo fascinante e este equilíbrio tantas vezes difícil entre os outros e eu…um equilíbrio às vezes improvável entre “Ai chega, chega” e …..Afasta, afasta…” da canção da Beatriz Costa.
Neste domínio imperam leis de alquimia, misteriosas forças de química e física que exercem atracção e repulsa…e das quais não temos de todo consciência…e às quais não poderemos escapar…
Por isso, nem sempre sabemos explicar… e intrigamo-nos…e deslumbramo-nos a decifrar este estranho mundo que habitamos e nos habita…
E por que razão me mantenho fiel aos autores dos artigos de opinião dos jornais e revistas cuja escrita devoro com uma espécie de adição, semana após semana, e que influenciam a forma como vejo o mundo, penso e sinto, e desta maneira me ligam a acontecimentos e pessoas com as quais nunca me cruzarei?
Tudo ordenado, como gosto, como faço nos meus armários , meticulosamente… coloco dentro de gavetas e nestas, caixas…as maiores às vezes ainda levam dentro outras mais pequenas…e dentro sacos…bolsas…Quando alguma coisa está fora do lugar…é fácil repor a harmonia…
No meu cosmos interior encontro a gravitar tantas pessoas que transcendem as etiquetas, os rótulos, as caixas, os lugares predefinidos…às vezes parecem o centro de toda a minha vida…outras, remetem-se para um lugar imperceptível…apesar de eu saber que estão todos lá e de desejar que continuem sempre a ter o seu espaço…Claro que na maioria das vezes é fácil eu perceber o que há lá dentro… Nalguns casos parece mesmo simples mas depois como arrumar todos os outros relacionamentos que são como que fios, todos diferentes, mas que se entrelaçam e intensificam…às vezes emaranham-se também, mas que tecem a vida real, numa enorme rede ou colcha em patchwork…
Todas estas pessoas existem e marcam a minha vida, o meu dia à dia … e tornam esta tarefa difícil…descrever este universo que pode ser ordem ou caos, inferno ou paraíso e por vezes ainda as duas coisas…é de facto uma ralação…
Deambulo pelas relações da minha vida, reanimando amigos de escola, pessoas a quem perdi o rasto mas que seria uma festa se me aparecessem agora aqui, à minha frente…Como estarão? Por que caminhos andarão? Procuro imaginar a cada um a sua família, a sua profissão, uma casa, uma rede de amigos…Mas desisto, com a consciência de que não posso competir em imaginação com a realidade…
Revisito o conforto dos amigos que me têm acompanhado ao longa da vida, como é bom sermos únicos, especiais, sempre maravilhosos...sabermos que arranjam sempre motivações nobres para justificar os nossos atos, quaisquer que sejam…para quem estamos sempre lindos!!! São um afago…
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