Saturday, August 18, 2012

Os outros e eu

Tenho uma amiga que diz…que não há relações, que no campo das interacções pessoais o que existem são “ralações”…
Quer ela com isto referir que estas coisas “dos outros e eu” não são nada lineares, bem pelo contrário… e muito menos fáceis…por isso requerem investimento…muito investimento? Não! O investimento todo!
Apesar do humor que está por trás desta visão da “relação-ralação” ninguém duvida que se trata de um assunto sério…dos mais sérios, até! Basta olhar para a inesgotável literatura em volta do tema…e dos bestsellers de auto-ajuda…Melhor ainda será olhar para dentro de nós…para os outros que habitam em nós …
Para Sartre o “inferno são os outros…” mas a raposa de Saint Exupery sabiamente ensinou ao principezinho o “b-a ba” das relações com um pedido “Cativa-me” e logo o advertindo que “só vemos bem com o coração porque o essencial é invisível aos olhos”…
Isto parece ser uma reflexão, mas não é… deixei de gostar de as fazer… Isto é só uma constatação! Começo assim a minha constatação com contributos dos outros…sobre este mundo fascinante e este equilíbrio tantas vezes difícil entre os outros e eu…um equilíbrio às vezes improvável entre “Ai chega, chega” e …..Afasta, afasta…” da canção da Beatriz Costa.
Neste domínio imperam leis de alquimia, misteriosas forças de química e física que exercem atracção e repulsa…e das quais não temos de todo consciência…e às quais não poderemos escapar…
Por isso, nem sempre sabemos explicar… e intrigamo-nos…e deslumbramo-nos a decifrar este estranho mundo que habitamos e nos habita…
Por que razão nos apaixonámos naquela surpreendente esquina na vida? Vá se lá saber porque empatizámos com fulano ou sicrano que por mero acaso encontrámos? Que insondáveis motivos nos levaram a afastar daquela amiga que víamos diária, compulsiva e obsessivamente, durante a nossa adolescência? Que aconteceu de forma tão silenciosa com aquela tórrida paixão “agora-é-que-é-para-toda-a-vida” para subitamente já nem nos olharmos nos olhos? Ou ainda que motivos nos levam, de repente perante a projecção de um filme, a desfazermo-nos em soluços, perante um amor que sabemos encenado, quando tantas vezes passamos apressados e indiferentes, pelo pedinte mutilado que nos estende a mão que recusamos olhar?
E por que razão me mantenho fiel aos autores dos artigos de opinião dos jornais e revistas cuja escrita devoro com uma espécie de adição, semana após semana, e que influenciam a forma como vejo o mundo, penso e sinto, e desta maneira me ligam a acontecimentos e pessoas com as quais nunca me cruzarei?
Começaria com uma sistematização….arrumando em conceitos em gavetas… “família”, “amigos”, “vizinhos”, “colegas”, “conhecidos”, menos amigos”, “influenciadores”, “comunidade virtual e o “resto do mundo”…e depois em caixas as sub-classificações – conceitos temporais “antigos”, “atuais”, e juntar coordenadas espaciais “Maputo” , “Lisboa”, “Coimbra” e por ai adiante…
Tudo ordenado, como gosto, como faço nos meus armários , meticulosamente… coloco dentro de gavetas e nestas, caixas…as maiores às vezes ainda levam dentro outras mais pequenas…e dentro sacos…bolsas…Quando alguma coisa está fora do lugar…é fácil repor a harmonia…
No meu cosmos interior encontro a gravitar tantas pessoas que transcendem as etiquetas, os rótulos, as caixas, os lugares predefinidos…às vezes parecem o centro de toda a minha vida…outras, remetem-se para um lugar imperceptível…apesar de eu saber que estão todos lá e de desejar que continuem sempre a ter o seu espaço…Claro que na maioria das vezes é fácil eu perceber o que há lá dentro… Nalguns casos parece mesmo simples mas depois como arrumar todos os outros relacionamentos que são como que fios, todos diferentes, mas que se entrelaçam e intensificam…às vezes emaranham-se também, mas que tecem a vida real, numa enorme rede ou colcha em patchwork…
Todas estas pessoas existem e marcam a minha vida, o meu dia à dia … e tornam esta tarefa difícil…descrever este universo que pode ser ordem ou caos, inferno ou paraíso e por vezes ainda as duas coisas…é de facto uma ralação…
Deambulo pelas relações da minha vida, reanimando amigos de escola, pessoas a quem perdi o rasto mas que seria uma festa se me aparecessem agora aqui, à minha frente…Como estarão? Por que caminhos andarão? Procuro imaginar a cada um a sua família, a sua profissão, uma casa, uma rede de amigos…Mas desisto, com a consciência de que não posso competir em imaginação com a realidade…
Revisito o conforto dos amigos que me têm acompanhado ao longa da vida, como é bom sermos únicos, especiais, sempre maravilhosos...sabermos que arranjam sempre motivações nobres para justificar os nossos atos, quaisquer que sejam…para quem estamos sempre lindos!!! São um afago…

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