
Hoje fui lá ver-te, desde que te deixámos lá definitivamente que nunca mais lá tinha ido. Já nem sabia o caminho que me poderia conduzir ao teu jazigo. Encontrei-te! Um passpartou com uma fotografia tua denuncia que o teu corpo está ali, mas tu não!... Simplesmente não estás lá, mas sim onde estiveste sempre e onde sempre te encontrarei... bem dentro de mim!...
Hoje vou tratar-te por "Tu", durante toda a nossa vida em conjunto, sempre te tratámos por "Você". A intimidade era a mesma, mas era assim... nunca me lembro de me questionar. Hoje, já não te trato por "Você", porque desde que o teu coração deixou de bater que passei a conversar contigo sempre tratando-te por "Tu".
Naquele dia, o meu coração contrastou com o teu... bateu bem forte quando o meu telefone tocou a dizer-me que partiras. Conduzi o meu carro até tua casa sem qualquer noção de perigo ou velocidade, que poderia pôr em risco o meu estado de vida, que parecia não fazer sentido face ao teu, acabada de morrer. Hoje sei que tentava correr contra o tempo, tentava chegar e ainda te poder ver, como tinha acontecido na véspera, em que apesar do teu estado de pré-coma, quando te falei ao ouvido -"Avó, minha Querida Avó!" Tu reagiste e murmuraste qualquer coisa. Pareceu-me que me dizias que me amavas. Semanas antes numa das Tuas vindas do hospital e depois de não reconheceres ninguém, olhaste para mim que te esperava à porta da casa de Sto. António e ainda dentro da ambulância, disseste:- "Paulinha, minha querida, estás aí...". Foi uma das grandes provas de Amor que me deste!
Naquele dia já não cheguei a tempo de te segurar. Mais uma vez ía atrasada... entrei no teu quarto, porque me pediram para confirmar se ainda respiravas... Não, já não estavas lá! Já não tive coragem de me aproximar do teu corpo. Ficaste naquela posição que jamais se vai perder na minha memoria.
Fiquei arrasada...deixei que levasses contigo uma boa parte de mim. E se já não estavas ali, estarias onde?... A única certeza que tive foi a de que nunca mais voltaria a ver o teu sorriso, a sentir o teu cheiro, a ver o brilho dos teus olhos quando me vias chegar. E eu chegava sempre atrasada e com pressa de partir para outro lugar. Tenho saudades até das vezes que ralhavas comigo, por trabalhar tanto e não arranjar mais tempo para te ir visitar.
As únicas duas certezas que me restam hoje é a de que naquele dia, também eu morri um pouco e a de te ter sempre bem dentro de mim.
Naquele dia também choveu...foi a Tua cidade a chorar-te connosco...
paula






