Monday, October 29, 2007

Maria


Hoje fui lá ver-te, desde que te deixámos lá definitivamente que nunca mais lá tinha ido. Já nem sabia o caminho que me poderia conduzir ao teu jazigo. Encontrei-te! Um passpartou com uma fotografia tua denuncia que o teu corpo está ali, mas tu não!... Simplesmente não estás lá, mas sim onde estiveste sempre e onde sempre te encontrarei... bem dentro de mim!...


Hoje vou tratar-te por "Tu", durante toda a nossa vida em conjunto, sempre te tratámos por "Você". A intimidade era a mesma, mas era assim... nunca me lembro de me questionar. Hoje, já não te trato por "Você", porque desde que o teu coração deixou de bater que passei a conversar contigo sempre tratando-te por "Tu".
Naquele dia, o meu coração contrastou com o teu... bateu bem forte quando o meu telefone tocou a dizer-me que partiras. Conduzi o meu carro até tua casa sem qualquer noção de perigo ou velocidade, que poderia pôr em risco o meu estado de vida, que parecia não fazer sentido face ao teu, acabada de morrer. Hoje sei que tentava correr contra o tempo, tentava chegar e ainda te poder ver, como tinha acontecido na véspera, em que apesar do teu estado de pré-coma, quando te falei ao ouvido -"Avó, minha Querida Avó!" Tu reagiste e murmuraste qualquer coisa. Pareceu-me que me dizias que me amavas. Semanas antes numa das Tuas vindas do hospital e depois de não reconheceres ninguém, olhaste para mim que te esperava à porta da casa de Sto. António e ainda dentro da ambulância, disseste:- "Paulinha, minha querida, estás aí...". Foi uma das grandes provas de Amor que me deste!
Naquele dia já não cheguei a tempo de te segurar. Mais uma vez ía atrasada... entrei no teu quarto, porque me pediram para confirmar se ainda respiravas... Não, já não estavas lá! Já não tive coragem de me aproximar do teu corpo. Ficaste naquela posição que jamais se vai perder na minha memoria.
Fiquei arrasada...deixei que levasses contigo uma boa parte de mim. E se já não estavas ali, estarias onde?... A única certeza que tive foi a de que nunca mais voltaria a ver o teu sorriso, a sentir o teu cheiro, a ver o brilho dos teus olhos quando me vias chegar. E eu chegava sempre atrasada e com pressa de partir para outro lugar. Tenho saudades até das vezes que ralhavas comigo, por trabalhar tanto e não arranjar mais tempo para te ir visitar.
As únicas duas certezas que me restam hoje é a de que naquele dia, também eu morri um pouco e a de te ter sempre bem dentro de mim.

Naquele dia também choveu...foi a Tua cidade a chorar-te connosco...


paula

Wednesday, October 24, 2007

Os Bons, os Maus...e os Outros




Sempre que penso em pessoas boas, lembro-me de casos muito concretos. Aqueles que já morreram e que inevitavelmente se tornaram bons e aqueles que são os nossos ídolos do fundo do coração. Isentos de mal ou maldade, virtuais ou reais, religiosos ou não, mas pelos quais nutrimos uma adoração espiritual ou divina tal, que não hà maldade capaz de se sobrepor a isso. Lembro-me sempre também que me ensinaram que esta segunda categoria depois de morta, vai sempre parar ao céu... a acreditar nisso, a primeira já lá está.

Os maus, são de todo o tipo e feitio e abundam numa variedade imensa, predominando assim sobre os bons. São seres humanos imperfeitos por natureza e frequentemente sujeitos a cometerem erros. Têm a maldade a correr-lhes nas veias juntamente com o próprio sangue, sentem-na como um complemento do seu próprio ser. Vivem desconfiados, fazem do egoísmo carreira e não olham a meios para atingirem os seus maléficos fins... A desculpa é sempre a de que são os fins que corrompem os meios... São uns angustiados!...

Os outros... aqueles que não são nem bons nem maus...
São aqueles que também lidam connosco e a quem demoramos uma eternidade até lhes concedermos o "benefício da dúvida" e depois outra, até finalmente os definirmos como tal. E quando os descobrimos, quando finalmente percebemos a que categoria pertencem, demoramos ainda mais outra eternidade à espera que sofram de um deslize, de um erro...

Os outros somos NÓS!...

paula

Sunday, October 21, 2007

Bloguiga de aluguer...:)))


Um domingo de Agosto em Outubro…

Hoje acordei assim… disposta a aproveitar aquele que seria certamente um dos últimos dias de sol e calor que todos dizem estar “fora de época”, mas que ainda não quero ver acabar.
Não me apetece sair do verão, entrar no outono, frio, desconfortável, chuvoso com dias pequenos e noites intermináveis…
Por isso, hoje, acordei assim – tranquila, com vontade de viver o resto da vida num tempo assim, andar ao sol, ver flores, relva, gente a passear, crianças a correr, felizes e tranquilas, como eu…
Lisboa é isso mesmo ao domingo – Belém, o rio, os Jerónimos, as tendas de antiguidades no jardim da praça do império, tudo me fez perceber que valeu a pena acordar para um dia assim.
“Aproveita o teu dia”, pensei ao acordar – carpe diem… aproveita o teu dia e todos os outros dias da tua vida… dizem que só temos uma, ainda não sei – às vezes penso que as experiências e as emoções que já vivi cabiam numas quantas vidas, são demais para uma só. Às vezes penso que já morri e nasci muitas vezes, tantas quantas me lembro, e sempre achando que a vida já é tão pouca… a velocidade a que andamos, sabe-se lá para quê, a pressa que temos em tudo ter e tudo poder, distrai-nos do essencial. É isso, momentos ao sol, apreciar uma flor, ouvir quem nos chama e precisa de nós, quem sabe, ouvir-nos a nós próprios…
O tempo passa rápido, impiedoso, sem respeitar a nossa vontade, quando damos conta já acabou o dia, a semana, o mês… a vida é feita de desencontros, de sonhos desfeitos, de projectos adiados. É raro podermos parar o tempo e apreciar o que nos rodeia, os sons, os cheiros, os sabores – por isso hoje, ao acordar, prometi a mim mesma que ia aproveitar o dia, o sol, o calor reconfortante da tarde, o cheiro do rio, o sabor do café e do pastel de cerveja, os risos soltos que ouvi enquanto apreciava as antiguidades que estavam expostas nas tendas. E cumpri a promessa por completo – por sorte, tudo aconteceu como eu pensei, tudo estava lá…
E pronto, agora já estou de novo no final de um dia mas no princípio de uma nova semana que (prometo!) vou aproveitar completamente. Aproveita o teu dia, a tua semana, a tua vida.
Não sei mesmo se temos uma só ou várias – só sei que quero que seja tranquila, harmoniosa, cheia de paz. Só assim penso que vale a pena, só assim sei viver… e apesar de querer ficar eternamente em Agosto, apesar de querer trocar as voltas ao calendário e passar ao lado do Outono, sei que aprenderei a gostar de novos sabores, cheiros e temperaturas, quando chegarem até mim.
A vida é feita de desencontros, de sonhos desfeitos, de projectos adiados? Nem sempre… desde que haja harmonia suficiente dentro de cada um de nós para podermos juntar todos os pedacinhos dos sonhos que ficaram fragmentados e transformá-los num sonho maior que nos faça acordar assim, numa manhã de domingo ou de um outro dia qualquer, com a convicção de querer aproveitar a vida por inteiro – porque ela é só uma mesmo – pelo menos de cada vez!!!


mgm

Saturday, October 20, 2007

Vai Alta no Céu


Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Alberto Caeiro ( O Pastor Amoroso)

Sunday, October 14, 2007

Realidade Virtual...




Estava um dia de Outono que mais parecia Agosto. Ela parou o carro, olhou para a esplanada e resolveu que passaria ali o final de tarde. Havia pouca gente, Coimbra foi sempre assim, lembrou-se que sentia sempre o mesmo quando ia andar de bicicleta para o Choupal e não se cruzava com quase ninguém. Parece que as pessoas não gostam de aproveitar a natureza, imaginava-as sempre em casa, frente à TV ou nos Centros Comerciais nas voltinhas do Marão
Sentou-se, decidiu que nem abriria o livro que levara, que o que lhe qpetecia mesmo, era ficar ali, a olhar para o rio e a aproveitar aquele fim de tarde quase virtual.
Enquanto pediu uma àgua, apreciou o ambiente. Alguns casais, duas senhoras a conversarem animadamente numa mesa, algumas crianças bem comportadas e um rapaz sozinho, sentado mesmo na mesa em frente. Tinha pouco mais de 30 anos e devia ter mais de 1.80m de altura, porte atlético, enquanto bebericava uma àgua sem gás, movia-se com aquela segurança de quem está num porto seguro.Ela sentiu o mesmo, uma serenidade quase plena, para um final de sábado.Só o olhou uma vez. Sentiu-se obeservada mais...mas fingiu nem reparar, afinal eram os únicos que não tinham mais ninguém na mesma mesa.

Passados muitos minutos, o rapaz elegante levanta-se. Ela pensou que se iria embora, mas enganou-se. Nem precisou de levantar o olhar para sentir a sua presença, mesmo ali ao lado, sorriso aberto e bonito, olhar curioso...
-Olá! Reparei que estamos ambos sózinhos, estás à espera de alguém?

Ela sorriu a sentir-se corar. Tinha mesmo mais de 1.80m de altura e estava ali mesmo à sua frente, a meter conversa, a tentar conhecê-la. Respondeu-lhe que naquele momento estava de facto sózinha e não esperava ninguém.

-Pois... nem sempre podemos andar acompanhados, não é? E também, com um dia como o de hoje...às vezes sabe bem andarmos sózinhos.

Sentou-se a perguntar se podia...ela teve a sensação de nem ter tido tempo de concordar, mas concordou...
Olhou-a com mais um sorriso e depois de pedir outra àgua sem gás, perguntou:

- Tens Hi5?

Ela ficou perplexa a olhar para ele, quase como se não quisesse acreditar no que tinha ouvido.

- Se tenho Hi5? Sim tenho, mas não o trouxe comigo, ficou em casa.

Ele soltou uma gargalhada contida, ficou sem perceber se ela tinha sentido de humor, ou se o estaria a caluniar.

- Desculpa, mas como gostava de te conhecer melhor...achei que poderias dar-mo.

- E tu, como te chamas?

Perguntou ela num tom irónico de quem está prestes a dar a conversa por arrumada.

- João, chamo-me João.

- Eu chamo-me Ana.

Ficaram em silêncio uns minutos até a àgua chegar.
Ela sentiu um arrepio como se o sol de repente já não a estivesse a aquecer. Olhou bem para ele, era bonito e pensou...

"Se tenho Hi5??? Para??? Se ele pensa que eu estou estou aqui, mesmo "à mão de semear", se posso falar, rir, dizer-lhe porque gosto deste fim de tarde...se pode reparar no meu olhar, no meu sorriso,na minha face corada, no tom e no cheiro da minha pele?...Para que precisa ele do meu hi5? Lá, não encontrará nada disso..."

Levantou-se com um sorriso educado, segurou no livro que não chegou a abrir e despediu-se sem se preocupar sequer em arranjar desculpas. Foi educada, sincera, real!...
Enquanto se dirigia para o carro, riu-se consigo própria, mas sentiu-se bem. Não lhe deu o endereço do hi5, para ser franca nem se lembrava do endereço de cor.

Afinal hoje não era só o tempo que lhe estava a parecer Virtual...

paula

O Amor é uma Companhia


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro (O Pastor Amoroso)

Friday, October 5, 2007

Fuja quem puder!!!


OK!... Já chega! Hoje decidi que vou passar a tomar SEMPRE uma atitude face ao síndrome do "sim, não, mas também..."
Há séculos que isto me acontece e até confesso que por vezes cheguei a pensar que era uma incapacidade minha de perceber, que o erro, ou o problema era mesmo meu. Mas não! Chega! Isto é mesmo um vírus! Que nunca mais ninguém se atreva a desculpar-se comigo nesta base do "sim, não, mas também..." porque eu vou passar a estar mais atenta, vou retaliar sempre que puder, pelo menos vai ser a minha forma de não ser apanhada por este vírus, que molda a mente de tantos seres... que não tendo bem a certeza das respostas para os problemas, põem a coisa sempre nestes três pés... e eu, até por uma questão de defesa, vou criar um antídoto e dizer CHEGA! Ou é sim, ou é não! O também é uma justificação injustificável, pelo menos para mim, ainda não afectada pelo vírus e que até já lhes começo a reconhecer os sintomas, todos detectáveis a olho nu, fácies rosadas e confusas...

Ontem, tive de ir tratar de um assunto burocrático a um departamento do Estado e o Sr. funcionário público que me atendeu, vendo-se incapacitado ( por falta de formação ou mesmo pelo cansaço neurológico que tal raciocínio lhe estaria a causar) resolveu-me a questão com um " sim, não, mas também..." Depois de já não conseguir contar pelos dedos das minhas mãos as vezes que lhe solicitei que se esforçasse e mesmo sendo sincera ao ponto de lhe explicar que estava perante uma perfeita leiga ou mesmo ignorante naquele assunto, obtive uma resposta fantasticamente resolucionadora do meu problema, mas que ainda estou para saber...porque me terá deixado roxa, verde, amarela, enfim...policolor de indignação. (normalmente fico impávida e serena).

-"A coisa é assim, não sendo o que pretende facilmente viável, sendo por outro lado perfeitamente possível...tendo em conta que me parece irresolúvel..."
(!???!!!!????....) Mas por favor...não sou eu que recebo o seu ordenado...eu só contribuo para que o senhor tenha formação profissional para em situações como estas possa fazer alguma coisa:))
-" Diga-me por favor, O QUE FAZER???"

-" Pode fazer alguma coisa...pode não fazer nada...ou pode também..."

-" Olhe... agora quem já não sabe se se sente capaz de o convencer a resolver-me a questão...sou eu! E sinceramente, não sei se estarei imune a esse seu vírus e se estando aqui assim exposta mais cinco minutos que seja...não ficarei igual ao senhor..."

Saí de la´frustrada, tinha perdido tempo e aquela serenidade matinal que me é tão necessária. Voltaria amanhã ou depois...sei lá...talvez precisasse de uns dias para me recompor e quem sabe, encontrar para a próxima alguém menos virusado.

Ao chegar ao meu carro, que por achar que o assunto não me iria roubar tanto tempo, tinha ficado menos bem estacionado...olhei para a cara do polícia que me estava a multar e reconheci-lhe imediatamente o vírus no fácies rosado pela excitação de me poder identificar na hora. Chega! O carro está mal estacionado, mas também não ficou a estorvar ninguém... e eu venho de uma situação quase traumatizante... esqueça a multa...passe por favor ao carro seguinte... apanhe por favor alguém hoje mais inócuo do que eu!... Nada!... a sintomatologia era a mesma, reconhecível a olho nu. Fui multada!

- "Ora Sr. Agente, acabo de passar a última meia hora com um familiar seu...talvez um irmão, um primo...um fácies rosado, um ar um pouco mais confuso, mas convencido de que a razão tem dono e estava ali mesmo junto aos seus pés..."


paula

Wednesday, October 3, 2007

Desejo escondido...


Procuro num olhar e não descubro,

num sorriso tento descobrir, mas não encontro...

Numa lágrima caída...

Num suspiro...

Dentro de mim...

Dentro de ti...

Será que procuro onde devo?...

Será que valerá a pena procurar?...

E se não existe?...Como vou descobrir?...

Estará assim tão escondido que nem tu o encontras?

ou...

Será que simplesmente não existe?


paula