
Estava um dia de Outono que mais parecia Agosto. Ela parou o carro, olhou para a esplanada e resolveu que passaria ali o final de tarde. Havia pouca gente, Coimbra foi sempre assim, lembrou-se que sentia sempre o mesmo quando ia andar de bicicleta para o Choupal e não se cruzava com quase ninguém. Parece que as pessoas não gostam de aproveitar a natureza, imaginava-as sempre em casa, frente à TV ou nos Centros Comerciais nas voltinhas do Marão
Sentou-se, decidiu que nem abriria o livro que levara, que o que lhe qpetecia mesmo, era ficar ali, a olhar para o rio e a aproveitar aquele fim de tarde quase virtual.
Enquanto pediu uma àgua, apreciou o ambiente. Alguns casais, duas senhoras a conversarem animadamente numa mesa, algumas crianças bem comportadas e um rapaz sozinho, sentado mesmo na mesa em frente. Tinha pouco mais de 30 anos e devia ter mais de 1.80m de altura, porte atlético, enquanto bebericava uma àgua sem gás, movia-se com aquela segurança de quem está num porto seguro.Ela sentiu o mesmo, uma serenidade quase plena, para um final de sábado.Só o olhou uma vez. Sentiu-se obeservada mais...mas fingiu nem reparar, afinal eram os únicos que não tinham mais ninguém na mesma mesa.
Passados muitos minutos, o rapaz elegante levanta-se. Ela pensou que se iria embora, mas enganou-se. Nem precisou de levantar o olhar para sentir a sua presença, mesmo ali ao lado, sorriso aberto e bonito, olhar curioso...
-Olá! Reparei que estamos ambos sózinhos, estás à espera de alguém?
Ela sorriu a sentir-se corar. Tinha mesmo mais de 1.80m de altura e estava ali mesmo à sua frente, a meter conversa, a tentar conhecê-la. Respondeu-lhe que naquele momento estava de facto sózinha e não esperava ninguém.
-Pois... nem sempre podemos andar acompanhados, não é? E também, com um dia como o de hoje...às vezes sabe bem andarmos sózinhos.
Sentou-se a perguntar se podia...ela teve a sensação de nem ter tido tempo de concordar, mas concordou...
Olhou-a com mais um sorriso e depois de pedir outra àgua sem gás, perguntou:
- Tens Hi5?
Ela ficou perplexa a olhar para ele, quase como se não quisesse acreditar no que tinha ouvido.
- Se tenho Hi5? Sim tenho, mas não o trouxe comigo, ficou em casa.
Ele soltou uma gargalhada contida, ficou sem perceber se ela tinha sentido de humor, ou se o estaria a caluniar.
- Desculpa, mas como gostava de te conhecer melhor...achei que poderias dar-mo.
- E tu, como te chamas?
Perguntou ela num tom irónico de quem está prestes a dar a conversa por arrumada.
- João, chamo-me João.
- Eu chamo-me Ana.
Ficaram em silêncio uns minutos até a àgua chegar.
Ela sentiu um arrepio como se o sol de repente já não a estivesse a aquecer. Olhou bem para ele, era bonito e pensou...
"Se tenho Hi5??? Para??? Se ele pensa que eu estou estou aqui, mesmo "à mão de semear", se posso falar, rir, dizer-lhe porque gosto deste fim de tarde...se pode reparar no meu olhar, no meu sorriso,na minha face corada, no tom e no cheiro da minha pele?...Para que precisa ele do meu hi5? Lá, não encontrará nada disso..."
Levantou-se com um sorriso educado, segurou no livro que não chegou a abrir e despediu-se sem se preocupar sequer em arranjar desculpas. Foi educada, sincera, real!...
Enquanto se dirigia para o carro, riu-se consigo própria, mas sentiu-se bem. Não lhe deu o endereço do hi5, para ser franca nem se lembrava do endereço de cor.
Afinal hoje não era só o tempo que lhe estava a parecer Virtual...
paula
2 comments:
Faz-me lembrar um cartton do Quino, em que um homem grava o canto de um passarinho. No final, dá um pontapé no bicho e fica deliciado a ouvir a gravação...
rafeiro perfumado;
ehehehe, gostei! E naquele tempo ainda não havia hi5... e obrigada, Quino era sarcástico o suficiente, para pôr a Mafaldinha a atirar o pequeno ao rio, não? ou a estrangula-lo com o seu lacinho do cabelo...ou...a afogá-lo mesmo no copo da agua sem gás.lol
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