Sunday, September 27, 2009

Ternura
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira, in
"Obra Poética"

2 comments:

Anonymous said...

Tinha sido outra vez a volúpia
as mãos deslizavam pela pele,
onde se fixava o luxo dos dedos
deslizando sobre nós

Beijava o interior das palavras iluminadas
pela sapiência, pela sensibilidade
dramática em imaginar
toda uma escala desarranjada
pelos perigos do vento

O frio não existia nos lençois
que levantámos,
percorrendo todos os atalhos
do teu corpo

ou pelos trilhos do Adágio.


Luís Mendes

Oliver Pickwick said...

Pensando bem, a ternura também está presente em outras circunstâncias cotidianas das nossas vidas. É uma pena que não a percebamos sempre.
Um beijo!