Monday, November 12, 2007

Desde que não me lembro...


A semana passada, numa das minhas rápidas idas de final de tarde ao supermercado, uma cigana adolescente abordou-me. Estava sentada no chão e tinha no colo um embrulho de pano que fazia perceber um bébé.-"compre-me comida!" disse-me. Olhei para ela sem expressão e só decidi que compraria qualquer coisa já dentro do supermercado. Dois iogurtes líquidos e uma caixa de bolachas. Quando saí, entreguei as compras a uma mulher com um embrulho de pano igual. Ao dirigir-me para o meu carro, vi a cigana adolescente do outro lado da rua, sentada num muro de cimento e a olhar-me espectante. Fiquei para morrer... tinha-me enganado na entrega, tive imediatamente de me desculpar, ao que ela respondeu: -"Não faz mal, é a minha mãe." Nem me senti incomodada pela falta de agradecimento por parte dela, eu tinha feito bem pior...segui viagem.

Percebi que a vida de hoje é cada vez mais isto. Fazemos as coisas de uma forma tão mecanizada que nem nos apercebemos...vivemos cada vez mais "SEM"... Sem olhar, sem reparar, sem sentir. Comprei aqueles alimentos sem me preocupar se seriam realmente úteis. Os bébés não bebem iogurtes líquidos...bebem leite! Saí do supermercado e entreguei a "encomenda" a um vulto sem lhe ver o rosto ou a expressão, sem me lembrar que minutos antes, o tinha achado demasiado jovem para ostentar nos braços uma criança. A razão pela qual o fiz, foi porque sei que ainda sobra em mim, alguma sensibilidade, alguma esperança, mas acabei por o fazer sem atenção, sem preocupação. Usei o tempo que penso que tenho e que não me posso dar ao luxo de gastar, nem que fosse só para pensar num pormenor. Simplesmente o fiz...

Mas... se realmente a vida de hoje é isto, se agora sou isto, o que foi que aconteceu? desde quando sou assim? Desde que não me lembro...e fiquei a pensar na última vez que terei parado. Não sei, não me lembro nem quando, nem onde terei deixado o meu lado tão atento, tão preocupado, meigo até. E tive saudades de quando a minha vida ainda não era esta fábrica de produção em série e fabrico mecanizado de coisas e acontecimentos onde não há tempo para os pormenores.
E senti pena...

paula




16 comments:

Unknown said...

pois é, não vivas tão depressa que te esqueças de ti...

CatDog said...

O teu nível de exigência denuncia alguma demanda pela perfeição?
Cumpriste o teu papel, mais do que a esmagadora maioria.
Não te martirizes pela questão de pormenor.

paula said...

Mana,
Esquecer-me de mim???onde??? E depois, quem é que me ía lá buscar???...:)))

paula said...

catdog,
Acho que tens razão, este post ficou um bocado melancolico demais, até para o meu gosto...
Acho que vou é espreitar o teu novo blogue:-))
festinha ou beijinho

Rafeiro Perfumado said...

Eu não ficaria com tantos problemas, Paula. O que importa reter é que tiveste uma atitude que 97% das pessoas, eu incluído, não tem, que foi comprares algo. Eu, infelizmente, já estou demasiado cinico para me deixar incomodar por certas coisas, nomeadamente bandos de pedintes que fazem disso a sua única profissão. Felizmente ainda há meios seguros de fazer acção social, através dos quais temos a certeza que o nosso contributo é bem encaminhado e vai para quem realmente precisa... e já me estiquei.

paula said...

rafeiro,
eu também costumo fazer parte dessa percentagem, não costumo ceder, mas nem sempre é fácil resistir. Ainda hoje lá voltei e acabei por dar duas bananas que tinha comprado para mim. Afinal os bébés têm um rosto e um olhar...
beijinho

CatDog said...

Ia eu. Só ficavas pendurada se quisesses.

paula said...
This comment has been removed by the author.
paula said...

lb,
Comentário difícil de comentar...acho que foi isso mesmo que tentei dizer. Que bom que era se conseguissemos mudar assim de repente as coisas que sabemos que não estão bem...E falo de tudo.

Beijinho

paula said...

catdog,
hehehe
és mesmo um catdog giro;)
hoje levas uma festinha :-)

vieira calado said...

Fazemos o melhor, mas nem sempre
tampouco nos dizem obrigado ou nos acenam com um pequeno sorriso, que vale para mim o mesmo.
Boa noite.

Gi said...

A tua atitude não é preocupante.
Preocupante é haver gente de mão esticada a pedir de comer.
Preocupante é não parar para pensar o porquê de não se parar mais vezes. Essa pergunta já tu a fizeste e não vai ser numa caixinha de comentários que vais encontrar a resposta. Ela está aí dentro de ti. procura que encontras.

Um beijo grande. Bom fim de semana

rir e mar said...

Olha o que é interessante é teres reparado que não reparavas, teres visto que não vias, teres sentido que não sentias...expressas muito bem esta correria para lugar nenhum...acho que todos sabemos exactamente ao que te queres referir...gostei, gostei muito
Bjs

paula said...

vieira calado,
Fazemos o melhor, ou por vezes o que pensamos ser o melhor?...Fazermos o que podemos, é no mínimo o nosso melhor...
Obrigada pela visita
um abraço

Gi
Sim, não podemos ter a veleidade de querer mudar o mundo e as pessoas, isso eu sei.E acho que tens razão, a resposta para estas dúvidas, está bem dentro de nós.
beijinho grande

rir e mar,
Defines muito bem, "correria para lugar nenhum", eu só acrescentaria "desenfreada".
beijinho amiga

Anonymous said...

Paula... Paula... Paula...
Há quanto tempo. Tanto quanto nem me lembro...
Beijo Grande

Oliver Pickwick said...

Ora, fez o que poucos o fariam. Portanto, não há razão pra conflitos íntimos, pois fez a sua parte.
Beijos!